"Fico feliz por constatar que nem todas as adversidades com que me tenho deparado são o suficiente para me distrair de agradecer os pequenos prazeres do dia a dia: o azul do mar, o vento ameno, a luz azulada da zona, o som dos motores dos carros em treino no autódromo mesmo aqui ao lado, a eternização do verão nas pessoas de minissaia e calções, o sorriso dos desconhecidos, as demonstrações de amizade dos conhecidos. Gosto desta característica de me conseguir manter eu apesar de tudo o que me tenta vergar." T. Out/15
(in)temporal
domingo, 5 de agosto de 2018
ESPAÇOS EM BRANCO (3)
Estava atrasado.
Como sempre.
Desta vez não tão involuntariamente como das outras.
Na verdade,
se pudesse, teria adiado para sempre esta conversa. Nunca fora de fugir das
situações, mas havia algo que lhe dizia que vinha apenas confrontar-se com o
que não soubera agarrar e sentia--se pouco preparado para tal constatação.
Conhecia-a há anos, mas muito pouco. Tinham um acumulado de horas de conversa sobre todos os
assuntos, mas sentia que mal a conhecia, que nunca a compreendia
verdadeiramente e que jamais conseguia antecipar o que ia fazer a seguir.
Às vezes, parecia-lhe nada mais que uma rapariga mimada, que usava do seu poder de
sedução para o prender, para o ludibriar sem nunca lhe ter dado realmente nada em troca. Nessas alturas, achava que ela o enganava, que não lhe dizia toda a verdade. Que jogava com ele um qualquer jogo sórdido em que o
empurrava para longe quando ele chegava um bocadinho mais perto e o puxava de novo para si quando percebia que ele começava a manifestar interesse em outras pessoas. Parecia fazê-lo andar nesta indecisão só pelo prazer de confirmar que ele continuaria a fazer tudo e qualquer coisa por
ela.
Desde que a
conhecera só perdera: a calma, a confiança, a vontade própria. Sofria de cada
vez que confirmava esta teoria de que a sua doçura era ensaiada e que a amizade
que fingia oferecer-lhe era nada mais que um capricho ao qual não tencionava,
de modo algum, corresponder.
Desgastava-se ao
tentar contrariar quando, distraída, a mente lhe fugia para sua voz, para a sua sensualidade, para a sua
aparente integridade e generosidade. Prometia a si mesmo manter-se no seu
lugar, não lhe dar mais do que ela merecia, mas honestamente nunca conseguia resistir quando a sentia mais próxima.
Nunca antes,
pelo menos. Há uns meses que tinha decidido acabar de vez com a palhaçada e
se tinha afastado dela. Não que ela não continuasse a perturbar-lhe o sono ou o
espírito, mas pelo menos não a via frequentemente e ela não tinha hipótese de
tecer a habitual teia à sua volta, com aqueles modos ambíguos de se mostrar
inacessível e ao mesmo tempo concedendo-lhe toda a sua atenção e cuidado.
Toda a gente
sabe que os homens e as mulheres não são simplesmente amigos. Pelo menos não
aqueles que não têm entre si algo que os una - como um irmão, um marido, um local
de trabalho, um gosto por algo particular. Os homens e as mulheres desenvolvem
uma amizade quando, um deles, recebe ou procura receber dela algo mais. E por
isso se mantém os encontros. Até que se verifique, do lado que espera mais, que
a relação não vai avançar. Aí, os supostos amigos afastam-se e procuram novas
amizades mais compensadoras.
Era isso que ia
acontecer com esta amizade.
Não podia mais compactuar com esta utilização mal
disfarçada do seu amor. Precisava de procurar relações mais compensadoras.
Precisava voltar a estar livre para procurar uma mulher com quem partilhar a
vida.
Não tinha sido
assim tão difícil manter-se longe até ver a calçada do jardim por baixo dos
pés. Da entrada do jardim, conseguiu ver-lhe o cabelo que o vento despenteava e
reduziu ainda mais o ritmo. Ainda que muito atrasado, não sabia como abordá-la.
Não sabia bem o que lhe dizer ou sequer se queria ouvir o que ela pensava sobre
o que acontecera. Por uma ou duas vezes ela tinha sido explícita no seu
desagrado e desapontamento. Sabia, com toda a certeza, que seria a última vez
que estaria com ela. Sabia que, quando fizesse o caminho de regresso, lhe
teria dito, explícita ou implicitamente adeus e que tudo terminaria assim.
Para ganhar
coragem, sentou-se num banco de jardim onde ela não o conseguiria ver.
Talvez
pudesse poupar-se a este último encontro.
Talvez pudesse, por uma vez, resistir
ao seu chamamento e ao seu poder de atração.
Talvez devesse evitar perder o
discernimento como acontecia sempre que o perfume dela dividia o espaço entre
os dois.
Talvez pudesse, inexplicavelmente, não aparecer.
T. (2004)
(participação no projeto as-sukar no tema Azulejos)
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terça-feira, 10 de julho de 2018
ESPAÇOS EM BRANCO (2)
Era nestes
momentos que amaldiçoava o fato de ser tão teimosa.
Que mania esta de achar que valia sempre a pena tentar salvar a relação que se tem com quem, por um motivo ou por outro, se gosta de verdade.
Que mania esta de achar que valia sempre a pena tentar salvar a relação que se tem com quem, por um motivo ou por outro, se gosta de verdade.
Já em várias
situações da sua vida tal característica se tinha revelado destrutiva e a
tinha conduzido a sofrimentos interiores maiores do que os necessários, se
soubesse, facilmente, largar os afetos que a vida afastava de si.
Nunca teve essa
grandiosidade: nem de proteger boas amizades de circunstância das suas
ausências e silêncios, nem de libertar aquelas que guardava com mais carinho.
Era-lhe difícil sentir-se ligada, estabelecer uma relação profunda e
verdadeira.
Era-lhe difícil confiar, mas mais ainda, era-lhe difícil reconhecer
interesse na personalidade de alguém.
Revelava-se improvável encontrar pessoas
que se transformassem em objeto do seu desejo, da sua admiração, do seu reconhecimento, do seu respeito ou da sua empatia.
Muito raramente se via envolvida com os outros, de modo a
querer a todo o custo manter-se por perto.
Dificilmente lhes conhecia
maturidade para lhes contar as verdades, os segredos e as manias de que se
revestia a sua vida e a sua forma de estar.
Nas suas buscas pelo autoconhecimento tinha concluído que, talvez por esse motivo, lhe fosse sempre
tão difícil perder alguma das poucas pessoas de quem gostava instantânea e
eternamente.
Enchia-lhe o peito de amargura sempre que antecipava o desatar dos
laços tão cuidadosamente apertados.
Entristecia-a de
verdade saber que, em pouco tempo se perderia o privilégio de poder ser
genuína, autêntica e que muito em breve as conversas se revestiriam do mesmo
que todas as outras conversas com todas as outras pessoas: cuidado, reserva,
meias verdades, meias respostas, parcialidades, silêncios.
Era como se lhe
ferissem o corpo sempre que as circunstâncias lhe levavam assim, tão
cruelmente, uma pessoa que considerasse especial.
T. (2014)
(participação no projeto as-sukar no tema azulejos)
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T. (2014)
(participação no projeto as-sukar no tema azulejos)
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quarta-feira, 27 de junho de 2018
ESPAÇOS EM BRANCO (1)
Talvez nenhuma
das pessoas que passavam pelo jardim lhe prestasse atenção.
Era provável que alguns
nem a olhassem de raspão por estarem tão ocupados com as suas vidas, as suas
pressas, os seus afazeres.
Podia ser que alguns levantassem os olhos do chão ou
virassem ligeiramente o pescoço para a observar melhor. Podia … ou não.
Sentada no banco
de azulejos azuis, alguns já quebrados pela violência do tempo e dos que por lá
passaram, não era corpo que merecesse à partida especial atenção.
No canto mais à
esquerda do banco, era simplesmente mais uma mulher sentada num banco de
jardim, aparentemente à espera de alguém.
A ansiedade denunciada pela
movimentação das suas mãos que entretinha com os anéis. Não tinha livros, nem
sacos, nem se recostava como que a passar tempo ou a descansar.
“Espera alguém.”
- confirmou para si próprio o homem que a olhava do interior da loja de artigos
domésticos do outro lado da rua.
Embora fosse
bonita, não era especialmente vistosa. Tinha um ar elegante e ligeiramente
deslocado, como se o jardim não fosse um dos seus lugares favoritos. Não parecia feliz, nem triste e embora os
óculos escuros não deixassem adivinhar o que pensava ou para onde olhava, o
homem do outro lado da rua achou-a melancólica e só.
Nessa noite,
quando finalmente se sentou a beber o seu copo de vinho, a imagem dela
surgiu-lhe na cabeça, tendo-se seguido uma sensação de inquietação que não
conseguiu disfarçar enquanto constatava que existiam, neste mundo, muito mais
pessoas sós e infelizes do que aquelas que qualquer um de nós é capaz de
aceitar.
T. (2014)
(participação no projeto as-sukar no tema Azulejos)
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domingo, 25 de março de 2018
de outras primaveras
Tal como as borboletas, Emília
sentia-se presa num casulo por demasiados meses, quando finalmente abriu as
portadas da sua janela e foi presentada com o brilho de sol no vidro.
Sorriu pelo acalmar da saudade
que sentia da luz, do azul, do chilrear.
Trocou as pantufas por uns
sapatinhos coloridos e as mantas que a tinham envolvido por uma blusa de linho.
Como se na primeira vez na sua
vida colocasse os pés fora de casa, inspirou calmamente o ar morno, deixou-se
perfumar pelo aroma dos metais agora aquecidos, alegrou-se com o amarelo das
flores silvestres que conseguia ver.
Caminhou, devagar, de olhos
postos no contorno das nuvens brancas e leves.
Sentia como se lhe nascessem asas
para poder bater os sonhos, as esperanças, os sorrisos para longe dali.
Esqueceu a dor do inverno, da
tempestade.
Perdoou as lágrimas, o desgosto,
a traição.
Prometeu tentar de novo e ser, desta
vez, ainda mais feliz!
T. (03/2014)
vencedoor no concurso promovido pela EC. ON 14
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