domingo, 21 de abril de 2019

Deixa-te corromper!

Uma das vantagens de viver numa capital que se tornou falada um pouco por todo o lado é a facilidade em contrariar aquela "pequenez" a que se remeteram os que há uns anos se viam num país pequenino e pobre. Agora podemos sempre descobrir em cada rua, esquina ou lugar um pouco mais do que mostramos ao mundo ou embeber-nos naquilo que o mundo impregnou na nossa cultura.

Esta coisa que se mistura sem se saber bem se se importou ou se se pretende exportar. Esta nova forma de vida e de estar em que os julgamentos, tal como os protocolos e as roupas, são mais leves, descontraídas e confortáveis. Uma nova, espontânea e significativa forma de te fazer sentir parte de um mundo maior do que tu, mesmo que esse mundo se materialize na cave do prédio onde tens o teu apartamento.

Eu adoro a calma da vila que me acolhe diariamente, mas fascina-me esta mistura despretensiosa e fácil e este corropio de gentes que podemos deixar imprimir-se na nossa mente numas poucas horas de observação.

O The George Pub (com música ao vivo) tem esta aura de aceitação que tanta falta faz ao mundo e por umas horas podes mesmo esquecer quanto cruéis é invejosos conseguimos ser uns para os outros. É possível neste agradável espaço renovar em ti a certeza de que existe mais para nos juntar do que para nos separar.


imagem no thefork.pt

sexta-feira, 19 de abril de 2019

"Já vi/ há dias em que tu/ não cabes em ti" - Ala dos Namorados


Fotografia de Marta Filipa Costa


"Há dias
Em que não cabes na pele
Com que andas
Parece comprada em segunda mão
Um pouco curta nas mangas
(...)
Parece
Que os sapatos que vês
Enfiados nos pés
Nem sequer são os teus
(...)
A noite voltas a casa
Ao porto seguro
E p'ra sarar mais esta corrida
Vais lamber a ferida
Para o canto mais escuro"

Ala dos Namorados
Há dias em que mais vale



quarta-feira, 17 de abril de 2019

Morte


"Conscientes da morte, saibamos endireitar as relações com os outros. Pôr cobro a uma inimizade, desculparmo-nos por uma injustiça cometida, saber reconhecer aquilo que por tacanhez não estávamos dispostos a reconhecer. Não levar tão a peito coisas que nos perturbaram demasiado: as pequenas quezílias dos outros, a sua presunção, a displicência com que se julga uma pessoa. O momento como desafio para que sintamos de uma maneira diferente.
O perigo: as relações já não são verdadeiras nem intensas porque lhes falta a seriedade momentânea que pressupõe uma certa falta de distância. E também: em relação a muitas das vivências que fazemos, torna-se decisivo que elas não estejam relacionadas com a consciência da finitude, mas antes com a sensação de que o futuro ainda será longo. A consciência da efemeridade e da morte eminente faria com que essas vivências fossem logo sufocadas à nascença" - Pascal Mercier em "Comboio Nocturno para Lisboa"

imagem no Pinterest em causosdenoiva.com,br

quarta-feira, 20 de março de 2019

Confesso-me apaixonada...


"Afinal, perguntei-me enquanto desviava o olhar, como se não tivesse dificuldade em ver o que estava no interior da montra, o que é que nós sabemos uns dos outros? (...) e não havia dúvida que era verdade aquilo que todos diziam, mesmo as pessoas que gostam de mim: que eu parecia um sujeito arrogante, alguém que despreza tudo quanto é humano, um misantropo que para tudo e todos tem sempre disponível um comentário cheio de escárnio. Foi essa, certamente, a impressão com que o fumador ficou de mim.
E, no entanto, como ele se enganava! Quantas vezes dou comigo a pensar: se ando sempre assim, tão exageradamente direito, não será para protestar contra o corpo inexoravelmente dobrado do meu pai (...) Quando me endireito é como se, ao fazê-lo, pudesse também endireitar, para lá do túmulo, as costas do meu orgulhoso pai, ou como se, por intermédio de uma qualquer lei mágica de efeito retrógrado, conseguisse tornar a vida menos curvada e minada pela dor. (...)
(...) Depois de uma noite sem fim, passada sem sono nem consolo, eu teria sido o último a olhar com arrogância para os outros. No dia anterior anunciara a um doente, na presença da sua mulher, que já não lhe restava muito tempo de vida. Tens que fazê-lo, insistira comigo próprio, antes de lhes pedir para entrarem no consultório, eles têm o direito de planearem o seu futuro e os dos cinco filhos. E depois, não esquecer: uma parte da dignidade humana consiste na força que é necessária para olhar o próprio destino de olhos nos olhos, por mais difícil que isso seja.
(...)
O olhar do homem do cigarro (...) Aquilo que via em mim não lhe podia revelar nada sobre um poço de dúvidas e fragilidades que tão-pouco coincidia com aquela minha aparência orgulhosa e mesmo arrogante. (...) extraí-lhe a imagem de mim que ele em si criara. Aquilo que eu parecia e mostrava ser, pensei, nunca o havia sido, nem um único minuto da minha vida. Nem na escola, nem na universidade, nem no consultório. Será que acontece o mesmo com os outros? Será que ninguém se reconhece no seu exterior? Que a imagem de si próprios lhes surge como um cenário de deformações grosseiras? Que todos se apercebem com horror do abismo que invariavelmente se abre entre a percepção que os outros têm deles e o modo como se vêem a si próprios? Que as duas intimidades, a interior e a exterior, se podem afastar de tal maneira que acaba por tornar-se quase impossível considerá-las como intimidade com o mesmo ser?
A distância para com os outros, para a qual nos transporta esta consciência, torna-se ainda maior quando realizamos que a nossa imagem exterior não surge aos outros como aos nossos próprios olhos.Não se vêem pessoas como se vêem casas, árvores ou estrelas. Vemo-las na expectativa de as podermos encontrar de uma certa maneira, tornando-as assim num pedaço da nossa própria interioridade. A fantasia compõe-nos uma imagem À nossa medida, para que os outros possam  corresponder aos nossos desejos e esperança, mas também de modo a que neles se confirmem os nossos próprios receios e preconceitos. Na verdade, nem sequer conseguimos alcançar, de uma forma segura e imparcial, os contornos exteriores de uma outra pessoa. A meio caminho, o nosso olhar é desviado e turvado por todos os desejos e fantasmas que fazem de nós a pessoa especial e insubstituível que somos.
Mesmo o exterior de um interior continua a ser um pedaço do nosso mundo interior, para já não falarmos dos pensamentos que produzimos sobre um outro mundo interior que, no fundo, são tão inseguros e imprecisos que acabam por revelar mais sobre nós próprios do que sobre o outro. (...) E como é que essa imagem se insere na estrutura secreta das suas simpatias e antipatias e na restante arquitetura da sua alma? O que é que na minha aparência é exagerado e ampliado pelo seu olhar e o que é que ele delicadamente exclui, como se não existisse? Inevitavelmente, será sempre uma imagem distorcida, aquela que o estranho fumador constituirá da minha imagem, e a sua noção daquilo que penso que acumulará distorções sobre distorções. E assim acabamos por ser duplamente estranhos, pois entre nós não se encontra apenas o enganador mundo exterior, como também a imagem enganadora que dele surge a cada interioridade.
Mas serão esta estranheza e esta distância mesmo um mal? E um pintor teria inevitavelmente que nos representar de braços abertos, desesperados na vã tentativa de alcançar o outro? Ou será que os eu quadro, nos devia mostrar, pelo contrário, numa posição reveladora do alívio que sentimos pela consciência dessa dupla barreira que é também sempre um muro protector? Devíamos estar gratos pela protecção que a perplexidade nos concede? E pela liberdade que ela torna possível? Como seria se nos deparássemos um com o outro completamente desprotegidos, através da dupla clivagem que o corpo interpretado representa? Se nos precipitássemos um para dentro do outro, sem que nada de divisório e ilusório se interpusesse?" Pascal Mercier, Comboio Nocturno para Lisboa
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