segunda-feira, 18 de abril de 2016

A Insustentável Leveza do Ser

Não só um título incrivelmente denso e cativante, mas uma obra doce, direta, cativante e forte que nos leva e enleva ao longo da vida das personagens que se apresentam sem aviso ou ordenação.

                                         
Há muito que não lia um livro tão diabolicamente entrelaçado e que prendesse a minha atenção e curiosidade por tanto e tão precioso tempo.

domingo, 3 de abril de 2016

Stoner





















Stoner é um professor universitário na primeira metade do séc. XX, apaixonado pela literatura e pelo ensino.
Pessoa de origens e pensamentos simples, que se concretizam numa vida banal, embora de certa forma desatrada e cheia de situações que apesar de corriqueiras nos prendem pelo mistério e sobretudo pela intimidade do discurso.

Criando uma espécie de empatia com partes do nosso próprio ser e do que faríamos nas mesmas situações é um relato fascinante e perturbador.
Aconselho a quem goste de ler só porque sim e a quem procure confrontar-se com estilos diferentes de escrita e narrativa.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Mil e um noites




Um final de noite em vésperas de verão. 
Estava escuro e 
quente ali.
As cores da televisão refletidas na pele nua e no branco das roupas que vestiam.
Espalhou-se no espaço que existe entre os dois aquele sentimento de falta de preenchimento. 
Aquele que nos faz abrir uma cerveja, fumar um cigarro, comer um chocolate ou batatas fritas.
Ela mexe a perna brilhante e bronzeada para afastar uma mosca e repara, embora disfarce, que o olhar dele se desviou da televisão para seguir o movimento da sua perna.
E logo de seguida ele mexe as pernas, cento e oitenta graus graus para mais perto.
Ela sorriu interiormente pela atenção que ele lhe prestou, lisonjeada por ainda o conseguir atrair para si, embora se mantenha exteriormente serena e aparentemente distraída.
- Vou comer. Queres alguma coisa?- deixa cair ele, parado em frente à televisão.
Ela  acena um não e nem sequer levanta o olhar para se encontrar com o dele. Sabe que assim que o fizer estará perdida. Ele estará a sorrir, maroto e ela não conseguirá resistir a responder com um sorriso também.
E é aí que ele a ganha, que ela deixa de conseguir fingir, que a razão se preenche de comodidade e conforto do prazer já conhecido, já trabalhado e ajustado.

Ele baixa-se e, num gesto que pretende ser ocasional, toca-lhe na pele muito ao de leve.

-Nem uma gelatina de melancia? - sempre as mesmas notas nesta cantiga de bandido que ela ouve em modo repeat sem se fartar.
 É a vez dela jogar. Sabe que ele reconhece o arrepiar da sua pele a cada toque seu. Anos volvidos e o arrepiar dá-se igualmente ao primeiro toque e vai-se repetindo numa cadeia ascendente à qual é difícil virar as costas e resistir.
- Não, obrigada. - consegue ela dizer sem o olhar.
Ele sai da sala. A ela invade-a a outra razão. Aquela que lhe recorda a sensação de angústia, de ansiedade,  de espera.
Ele volta a entrar. Ela observa-o, antecipando cada gesto seu, cada movimento do seu corpo. O sorriso que se formará quando a consegue distinguir na penumbra,  o olhar ardente que a vai percorrer da ponta do pé até aos olhos, a forma como a camisa azul clara se vai ajustar no peito quando ele se baixar, o aroma a perfume que a rodeará ao aproximar-se,  a tensão das veias do seu braço quando pousar a mão ao lado do seu corpo para se apoiar. O reflexo da luz no masculino relógio que traz no pulso. A maciez dos seus lábios quando tocarem o seu pescoço, a firmeza dos dedos que obrigarão o seu rosto a elevar-se e a solidão que verá espelhada no brilho aos olhos dele quando finalmente não os conseguir evitar.


Assim, sem aviso prévio, nem motivo de primordial importância, vai-se perdendo parte do encanto nesta desconstrução das inconformidades deste inalcançável ser.
Em tempos este olhar indecifrável fazia-a correr em seu salvamento. Sentia-se bóia,  bote salva-vidas, cobertor e conforto do que lhe parecia o mais indefeso dos seres humanos.
Hoje sente o seu próprio ser remendado, em luta pela sobrevivência enquanto tenta esgueirar-se dos becos escuros para onde a empurra esta sedução doentia e fraca.
Desta vez gela-se o impulso de aproximar os seus lábios do calor prometido. 
Inebria-se o corpo, perdendo capacidade para continuar a provocação. 
Demora-se o tempo em câmara lenta e muda-se a prespetiva, como se outras personagens observasse em seu lugar. Segue-se um sabor amargo na boca e o desconforto característico de perda e desilusão.
Tudo o que haviam tido desmorona-se assim, num corriqueiro segundo, enquanto ela se mantém imóvel apesar da proximidade do corpo dele.
Segundo que ele nunca conhecerá, compreenderá ou dará valor, mas que a liberta dele como antes horas de um dia inteiro nunca tinham conseguido fazer.




Foto: Inspiration Grid

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Welcome 2016




Seja por vício, hábito, feitio ou só porque sim, sou pessoa de balanços, paragens, reflexões. Não avanço na vida sem a reviver e repensar. Nunca assim fui. Quando era mais nova revivia o dia à noite na almofada, era quando sonhava, quando imaginava, quando havia silêncio para isso.
Agora à noite assombram-me os problemas que não consigo imediatamente resolver e os medos próprios de quem vai envelhecendo e tomando consciência das barreiras, da quantidades dos que mesmo sonhando sofrem quedas irreparáveis, dos que nunca têm hipótese de tentar saltar as barreiras, dos que ficam para trás, dos que a custo temos que largar para progredir.
Por isso agora são dispersos os momentos de pausa no meu dia-a-dia: quando tomo banho, quando tomo chá, quando olho pela janela. Ou seja, sempre que me dou um tempo de pausa para confirmar o caminho, como quem pára para beber água e consultar novamente o mapa.
Não consigo, por isso, passar estas fases de convencionais balanços sem os fazer. Mais um ano passou. Mais um verão, mais um Natal. Aproxima-se mais um 1.º dia de um ano inteiramente novo. Irremediavelmente questiono-me se o aproveitei bem, se soube dirigi-lo onde me tinha proposto, se cumpri as promessas que fiz a mim mesma.
2015 foi um ano especial (como o são todos, talvez). Ano de sair da casca, arriscar, voltar a pôr o pé fora do círculo e começar tudo de novo. Depois de anos de reconstrução foi ano de inaugurar a “casa nova”, de deixar o mundo entrar. Esperei sempre que estes anos de introspeção me trouxessem mais calma, ponderação e sabedoria para saber lidar com o que me perturba.
Apesar de ter sido um ano muito difícil e cheio de novos obstáculos para os quais não me tinha preparado, foi reconfortante perceber que mesmo no meio da tormenta não foi difícil agarrar-me às pequenas coisas e que na escolha dos projetos a adiar não foi difícil sentir-me realizada com aqueles que mantive em desenvolvimento e que de entre todas as “vidas” que podia ter, esta, não sendo perfeita nem parecida com a que tinha imaginado, é provavelmente a que mais combina com o que escolho, com o que penso e com o que sinto.
Numa fase em que a finitude da vida se torna mais real do que nunca, embora (fantasiosa mas) confortavelmente distante, prometi ser mais ativa na busca do estilo de vida que me faz feliz, dar menos “tempo de antena” às pessoas a quem não reconheço suficiente valor ou que me atrapalham gratuitamente.
Nenhuma destas promessas é tarefa fácil, principalmente para quem trabalha com pessoas e chega de novo, assumindo um cargo de destaque num ambiente profundamente hostil. Por isso nem sempre sou bem sucedida. Mas as vezes em que sou confirmam que com tempo conseguir cada vez melhor controlar aquilo e aqueles com que quero gastar o meu tempo ou oferecer o meu ser.
Que 2016 chegue ainda em rescaldo da fraternidade que une as pessoas no natal.
Para mim, que venha igualmente desafiante e de preferência com um bolso recheado de “docinhos” para distribuir ao longo do ano.
Para os meus amigos e para todos os que me querem bem que seja um ano a que deem a volta facilmente e no qual sejam muito felizes. É essa felicidade alheia que me conforta e que me faz ter a que aspirar.
Para todos os outros que seja um ano de paz.

T.

Fotografia em searchingfortomorrow
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